Persépolis e o Irã

Ano passado li a autobiografia em forma de HQ chamada Persépolis. Me apaixonei desde o primeiro quadrinho. Além de me identificar muito com a personagem de Marjane Satrapi, aprendi horrores sobre a história do Irã. Isso porque a história narra a vida da Marjane durante a revolução que ocorreu lá no Irã no final dos anos 70.  Nesta época o povo de lá sofreu muito com o Governo Xiita, que reprimia e controlova os cidadãos. Como a família da Marji era super politizada, ela passou por muitos conflitos em sua infância e adolescência.

Recomendo MUITO tanto o livro quanto o filme adaptado da HQ. As ilustrações são lindíssimas.

Mas, tudo isso para postar aqui uma entrevista que encontrei na Web com a Marjane falando sobre toda a crise política que está acontecendo no Irã. Se nós pintamos nossas fotos do Twitter de verde e acompanhamos os conflitos mesmo que de longe, imagina o que não está passando pela cabeça dela?

17/06/2009
“Mais que uma fraude, houve um golpe de Estado no Irã”, diz autora de Persépolis”

El País
Ricardo Martínez de Rituerto
Em Bruxelas (Bélgica)

A artista e cineasta Marjane Satrapi, 39 anos, alcançou renome mundial com “Persépolis”, uma autobiografia de sua infância e adolescência antes e depois da revolução iraniana que ocorreu em 2000 e anos sucessivos, primeiro em forma de quadrinhos e depois levada com sucesso ao cinema. Satrapi vive exilada em Paris e embora se defina como apolítica diz que se envergonharia de não saltar agora à arena em defesa da democracia em seu país. “Houve um golpe de Estado no Irã”, afirma. Segundo ela, a junta eleitoral adiantou a Mir Hosein Moussavi sua vitória antes que os militares lhe dissessem que o regime não o tolerava. A artista entregou na terça-feira aos jornalistas uma cópia do comunicado confidencial em que supostamente o Ministério do Interior adianta a vitória do candidato de oposição ao regime.

El País – O que aconteceu no Irã?
Marjane Satrapi –
Houve um golpe de Estado, mais que uma fraude. A comunidade internacional não deve reconhecer a legitimidade de Mahmoud Ahmadinejad.

El País – Que provas a senhora tem desse golpe de estado?
Satrapi –
Inúmeras. Que votaram 13 milhões de pessoas a mais que quatro anos atrás, e votaram pela mudança; que nas eleições anteriores Mehdi Karrubi teve mais de 5 milhões de votos e agora só aparece com 280 mil; que os candidatos foram derrotados inclusive em suas localidades natais por porcentagens de 93%; que os números que saem do Ministério do Interior em um comunicado confidencial são completamente diferentes dos oficiais.

Moussavi recebeu uma ligação da comissão eleitoral na qual lhe disseram que havia ganho e que fosse preparando seu discurso, e depois os chefes militares foram vê-lo para dizer que não se aceitaria essa revolução. Segundo a lei eleitoral iraniana, os resultados devem ser anunciados 72 horas depois, para que haja certeza de que os votos foram bem contabilizados, e aqui foram anunciados rapidamente.

El País – Não é muita diferença de votos a favor de Ahmadinejad para se duvidar?
Satrapi –
Pode-se dizer que os iranianos elegeram Ahmadinejad porque é um populista, mas o barril de petróleo não está a US$ 100, e sim a US$ 40. O país é pobre, o preço da cesta básica triplicou… por isso não creio nesse voto populista. Se realmente 62% dos iranianos votaram em Ahmadinejad, deveria haver manifestações de milhões de pessoas a seu favor. Inclusive supondo que não houve fraude, já que houve tantos protestos, por que não votar novamente? Se 62% votaram em Ahmadinejad, voltarão a fazê-lo, ou não?

El País – O Conselho dos Guardiães vai fazer uma recontagem…
Satrapi –
Mas para que haja uma recontagem verossímil deve haver uma arbitragem neutra que confirme que a apuração foi bem feita.

El País – A República Islâmica pode cair?
Satrapi –
Não creio. Quando 85% das pessoas vão às urnas é que o regime não está prestes a cair. Os iranianos querem mudanças, evolução. Os que vivem na diáspora podem ter grandes sonhos, mas os que vivem no país é que devem decidir.

El País – A senhora procede de uma família laica, cosmopolita e de esquerda, e não parece inflamada contra a teocracia iraniana.
Satrapi –
Eu sou de esquerda, mas hoje falo da possibilidade de mudança que as leis oferecem. Não sei se é realista dizer agora que é preciso mudar tudo, de cima a baixo. O realista e que, se só é possível melhorar um pouco, é preciso fazer esse pouco.

El País – Acredita que os iranianos estão dispostos a ir até o fim?
Satrapi –
Já são três dias de manifestações, sem ninguém dirigindo nada, porque as comunicações foram cortadas. Mas continuam se manifestando. E manifestar-se no Irã não é como manifestar-se na Europa. Lá podem matá-lo.

El País – Em “Persépolis” a senhora se refere à ampla manifestação da revolução de 1979 como a maior festa da história do Irã. A grande manifestação de terça-feira em Teerã lembrou a algumas pessoas essa de 30 anos atrás. Faria uma nova história em quadrinhos sobre tudo isso?
Satrapi –
Não creio. Há 15 anos que não vivo no Irã e dez desde que fui pela última vez. Com o livro e o filme eu disse o que tinha a dizer. Sou uma artista. A política não é para mim. Infelizmente, o que está acontecendo é muito grave e me envergonharia de mim mesma se não fizesse nada

Encontrei aqui.

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Ana Migowski, arquiteta de informação, mestranda do PPG em Comunicação e Informação (UFRGS), graduada em Comunicação Digital (Unisinos) e estudante do Bacharelado em Ciências Sociais (UFRGS). Apaixonada por antropologia, cinema, teatro, tecnologia e afins. Uma geek com um Q de bicho grilo. :)

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