Memórias online

Venho estudando sobre o modo como a memória, tanto pessoal quanto coletiva, aparece no contexto da web. Penso que diversas formas de registro que vamos deixando na rede ajudam a contar nossa história, bem como a dos acontecimentos, lugares e pessoas sobre as quais falamos.

Assim, quando compartilhamos algo no Twitter, fazemos check-in no 4Square ou simplesmente postamos uma foto no Flickr, estamos contando um pouco sobre nós mesmos. E as ferramentas de busca, bem como outras funcionalidades, nos ajudam a visualizar tudo isso de maneira a dizer: “Nossa, mas já faz tanto tempo?” ou ainda “Nem lembrava de ter publicado isso”. A Timeline do Facebook não me deixa mentir sobre essa tendência: estamos sim compartilhando nossas memórias na internet.

O curioso é que tenho encontrado ambientes dedicados à tarefa de fazer com que nossas memórias fiquem mais bem organizadas, adquiram visibilidade e sejam preservadas. Falarei um pouco sobre alguns deles aqui.

1000 MemoriesImagem

É uma espécie de site de rede social, na qual o usuário pode postar fotos antigas e incluir metadados que as contextualizem, como data, local, pessoas presentes, histórias, etc. Essas fotos vão para uma “shoebox” (caixa de sapatos) online, onde ficam armazenadas e seguras em relação às marcas do tempo.

Também é possível criar uma árvore genealógica da família, incluindo parentes e convidando-os a entrar na rede para colaborar. Acho, aliás, que essa é uma das funcionalidades mais interessantes do site.

Memolane Imagem

É um agregador das publicações nos principais sites de redes sociais. O usuário cria um perfil (na forma de vária lanes, ou timelines) e configura quais os serviços que serão rastreados pelo Memolane. O serviço vai incluindo automaticamente as atualizações, organizadas por dia, no perfil do usuário. A parte interessante disso é ver como os acontecimentos da vida vão se relacionando. O mais legal é que o sistema faz tudo sozinho, a pessoa só precisa continuar utilizando normalmente os recursos que estão na rede.

TimehopImagem

Na mesma linha do Memolane, é um site que trabalha agregando valor de memória às memórias que registramos na web. Mas, o legal é que ele manda por e-mail (sim, super old school) atualizações que fizemos em algum site de rede social (Twitter, Facebook, 4square ou Instagram) no ano anterior naquele mesmo dia. É interessante porque faz a pessoa perceber o que mudou de um ano para o outro, o que estava pensando um ano antes, e coisas do tipo.

CowbirdImagem

É uma plataforma para “contar histórias” (ou storytelling, para usar uma buzzword). Cada usuário possui um perfil no qual pode publicar histórias utilizando recursos como fotos, vídeos, áudio e textos. Tudo junto, ou separado, ao gosto do autor. O sistema disponibiliza uma série de recursos de categorização dos conteúdos, de maneira que depois as histórias contadas por pessoas diferentes possam ser acessadas em um mesmo local. Por exemplo, se contar uma história sobre a minha gata de estimação e utilizar a tag “cat”, ela irá para uma galeria com histórias de outros tantos gatos espalhados pelo mundo. Se eu localizar a foto em Porto Alegre (onde moro), poderei ver outros conteúdos de pessoas que também se referiram à minha cidade.

Há ainda os “Tópicos”, que são galerias especiais sobre os assuntos “First Love“, no qual várias histórias sobre o primeiro amor são agrupadas, ou “Occupy“, que agrega histórias sobre ocupações e movimentos sociais e políticos pelo mundo.

Estes são apenas alguns exemplos de recursos que podem ser utilizados na web para contarmos a história de nosso tempo. Escolha o(s) seu(s) e comece a (re)lembrar. :)

Rock n’roll Babies @Youtube

Nas últimas semanas vários vídeos de bebês que curtem rock e metal circularam pela web. Aparentemente, muitos pais estão com as câmeras sempre prontas para filmar os “melhores momentos” de seus pequenos. Esses registros começam a formar a presença dessas crianças na rede, algo que não é feito por elas, mas sobre elas (e seus pais, claro). O fato é que muitas delas, quando crescerem possivelmente verão esses vídeos on-line.

Nosso gosto musical – apesar de passar muitas vezes por “mal momentos”, principalmente na pré-adolescência -, se baseia em grande medida naquilo que nossos pais e irmãos mais velhos ouvem. Claro que isso não é uma regra, mas conheço diversas famílias em que essa lógica funciona. De qualque forma, até pouco tempo atrás essa característica ficava na esfera privada, nos discos, fitas e CDs que eram guardados na sala da casa de muitas famílias. Com a possibilidade de tornar públicos nossos gostos, e porque não essas performances fofas de bebês curtindo um rock n’ roll, outras facetas da identidade e da memória familiar ficam aparentes.

Então aí vão alguns vídeos dessas criaturinhas \m/.

Exactitudes

Eu já tinha tweetado sobre o “Exactitudes” em 2009, mas fiquei super feliz de saber que ele continua funcionando.

Trata-se de um projeto idealizado pelo fotógrafo Ari Versluis, que está há mais de 16 anos registrando os códigos culturais e a moda dos mais diversos grupos pelo mundo. Vale muito a pena viajar no tempo e no mundo com essas imagens.

 

Buscas: um breve caminho

Um vídeo que conta a história do sistema de buscas que alguns chamam de “Oráculo”, foi divulgado essa semana no blog oficial do Google. A linha do tempo percorrida ao longo da explicação começa em 1996 e aponta algumas possibilidades para o futuro.

Esta “retrospectiva” mostra direitinho como as mudanças são rápidas na comunicação digital. Ao mesmo tempo, também deixa claro que o Google está sempre observando as necessidades de seus usuários, e respondendo a elas com uma agilidade que chega a dar medo.

É interessante pararmos para pensar, de vez em quando, sobre “como chegamos até aqui”. Visitar o Web Archive ou o Internet Archaeology também ajuda a perceber os caminhos que percorremos. Acredito muito que construir uma memória da Web, e nossa participação nisso tudo, será muito importante em tempos de registros cada vez mais efêmeros.

Crowdfunding funciona

Ontem passei por uma experiência que me convenceu: crowdfunding funciona de verdade. Explico:

Lembra daquele vídeo que rolou na Web em 2008/2009, em que músicos independentes de vários locais do mundo cantavam a famosa “Stand by Me”? Pois então, me emocionei de cara quando o assisti pela primeira vez, daquele jeito que dá vontade de compartilhar com todo mundo, sabe?

Mais de 3 anos depois, uma iniciativa muito legal do pessoal do site Traga Seu Show conseguiu reunir fundos para patrocinar a vinda de alguns dos músicos a Porto Alegre, onde moro. E, claro, fui conferir o show da Playing for Change no Bar Opinião.

Foi interessante perceber que a maneira que a banda foi divulgada (pela Web) criou um clima diferente para o show. As pessoas estavam ainda mais propensas a sacar seus celulares, smartphones e câmeras fotográficas para registrar cada momento. E, quando Grandpa Elliot entrou no palco, a imagem passou a ser quase que completamente enquadrada pelas telinhas. Claro que isso não é novidade. Qualquer pessoa que tenha ido a algum show musical nos últimos anos certamente percebeu isso. Mas, a diferença foi que as pessoas pareciam pensar “hmmm, isso vai pro Youtube”.

Foi possível sentir uma conexão entre as pessoas. O bis, obviamente, foi dedicado ao grande sucesso da banda:


  Repare nas telas surgindo aos poucos durante a música.

Além desse exemplo, tive contato com outros projetos muito bacanas, patrocinados de forma colaborativa através do Catarse. Deixo aqui como sugestão para quem quiser conhecer:

Equipe do Ônibus Hacker

Ônibus Hacker: Projeto que levará, a bordo de um ônibus, ideias inovadoras com caráter social a vários Estados do Brasil.   O idealizadores pretendem promover cursos e “invasões” hacker a diversos lugares e, no meio do caminho (literalmente) desenvolver plataformas digitais que façam a diferença, como o Otoridades.

Equipe do Gastronomismo

Gastronomismo: Série de programas de culinária com uma estética super bem produzida. Os episódios são temáticos, o que deixa a gente com ainda mais vontade de acompanhar. Quero muito fazer os cookies do Friends. :)

Um (belo) ponto de ironia

No mês passado tive a oportunidade de visitar uma exposição belíssima organizada pela Fundação Vera Chaves Barcellos. A Sala dos Pomares, local onde a exposição acontece, fica em Viamão, dentro do Sítio onde Vera Chaves Barcellos mora e produz seus trabalhos.

Um ponto de ironia - Fundação Vera Chaves BarcellosFiquei surpresa com a qualidade das obras que compõem a mostra. Lá estão esculturas, instalações, quadros, fotografias, montagens e vídeos da década de 60 e 70, principalmente. Todas têm em comum o tom questionador, que faz parte da ironia, certo?

O destaque, na minha opinião, vai para os trabalhos de arte postal. Confesso que não conhecia muito essa forma de divulgação artística, mas achei genial. Pessoas que não se conhecem trocam postais que são verdadeiras obras de arte. O movimento esteve em alta nos anos 60, quando a liberdade de expressão foi bastante restringida em diversos países da América  Latina. Acredito que ainda existam grupos que compartilham sua arte dessa forma.

Toda essa história me fez lembrar que, algum tempo atrás, recebi pelo correio um postal de uma amiga muito querida. Como fazia bastante tempo que só chegavam contas e malas-diretas aqui em casa, fiquei bem emocionada. Com certeza não é a mesma sensação de receber um e-mail. O trabalho de escolher uma imagem, redigir um texto à mão, colar um selo e, principalmente, lembrar o endereço do destinatário, tem um significado único.

Sim, estou tendo momentos super nostálgicos nos últimos tempos.   :)

BTW, visitem a exposição e aproveitem bastante.

A história que escrevemos na Web

Hoje cheguei até uma apresentação muito interessante no slideshare. Na verdade, ela traz algumas ideias que se aproximam bastante do que pretendo trabalhar no meu mestrado. (Sim, passei na seleção do mestrado do PPGCOM da UFRGS. :D)

O projeto que estou propondo trata sobre a memória que cada interagente/usuário/indivíduo (como acharem melhor) registra na web. Meu ponto de partida são as memórias “póstumas”, deixadas por pessoas que já faleceram. Os registros dessas pessoas (perfis em sites de redes sociais, posts em blogs e informações diversas) geram várias interações entre aqueles que continuam ativos na web, como a criação de homenagens, espaços de conversação e produtos em outros suportes (como livros e até obras de arte).

Mas, o que me chamou a atenção na apresentação “Your Life Is A Transmedia Experience” é que a autora Jenka Gurfinkel mostra que a Transmedia, que geralmente aparece com o sobrenome Storytelling, não diz respeito só às campanhas publicitárias e de seriados de TV.

Na verdade, ao utilizarmos várias mídias diferentes para contar o que estamos fazendo, narrar um evento, publicar nossas fotos ou mesmo compartilhar um link interessante estamos gerando um imenso banco com nossas “memórias” e, consequentemente, contando nossa história.

The Bright Light Social Hour

Detroit by thebrightlightsocialhour

Banda da semana, com certeza. Alta qualidade, e olha que estão apenas no primeiro CD.

Mais no site da banda e no MySpace.

Esse tal de Rock’n Roll?

Contracultura, subversão, atitude ou estética, melodia, espetáculo?  O que você entende por pureza do “Rock and Roll”?

Estas e outras perguntas foram levantadas, na semana passada, no 2º Minicurso Criminologia e Rock and Roll, da Faculdade de Direito da UFRGS.

Foi bonito ver um público de mais de 100 pessoas, em um ambiente formal que só uma faculdade de direito pode proporcionar, discutindo a relação Sagrado X Profano como as bases do movimento cultural e musical mais querido do (meu) mundo.

Assisti apenas a primeira palestra no dia 12/08, comandada pelo criminologista e doutorando em Filosofia Moysés da Fontoura Pinto Neto. Ele apresentou uma cronologia do Rock que deixa bem clara as mudanças que ocorreram na ideologia do movimento.

Os exemplos foram mostrados através de clipes que deixam bem claro o caminho pelo qual passou o estilo desde os anos 60.

Anos 60/70: Profano, contestatório, maldito (no bom sentido)

Com letras que contrariavam a lógica social da época, bandas como Black Sabbath, AC/DC e Rolling Stones abriram os olhos, corações e mentes de muitos para a uma maneira diferente de ver o mundo. O “bom comportamento”,  sagrado pela ordem e os bons costumes,  foi revisto pela tríade clássica “Drogas, Sexo e Rock’n’Roll”. Com tudo isso veio também as radicais mudanças na política, que  nós bem conhecemos pelas histórias dos anos de chumbo.

Anos 80: Espetáculo, melodia, pop

Assistir esses dois vídeos, assim, na sequencia, mostra exatamente a diferença de uma época para outra. Os anos 80, economicamente chamados de “a década perdida“, podem representar um esvaziamento no sentido de profanação dos anos 60/70. Claro, a música é divertida e tudo mais, mas é fácil notar que ela está muito mais para entretenimento do que para um possível vetor de transformação social. OK, talvez não fosse o “objetivo” da geração. Mas será que poderia ter sido?

Anos 90: Profanar o improfanável

Bandas como Nirvana e Pearl Jam, tentaram dar um novo sentido para o rock and roll, com letras e performances que geravam, no mínimo, um estranhamento. Uma fase tomada pelos riffs pesados, quebradeiras de guitarras e camisas xadres.

Kurt Cobain, como lembrou Moysés, bem que tentou fugir da exposição e dos flashs. Mas, sua indiferença proposital só despertava ainda mais a curiosidade da grande mídia.

Anos 2000: A estética pela estética

Britney Spears. Sim, ela mesma. O que restou da atitude nesta regravação do clássico do The Arrows? Bem, não é preciso dizer que há uma tentativa bem feitinha de mostrar a estética que permeia o rock’n roll. Mas, definitivamente,  não há como retirar o verniz pop-comercial…

Mas, há esperança?

Bem, eu saí com a impressão de que sim. Esse papinho de “não temos mais contra quem lutar” não me convence mais. Com certeza temos vários problemas existenciais (falo pela minha geração), mas acredito que a mudança que precisamos promover está dentro de cada um de nós. Revoltar-se contra o “sistema” não parece mais o mote do rock’n roll que temos que pensar para o futuro.

Sou mais os caras do Sigur Rós. A banda Islandesa faz um post-rock cheio de atitude. Esse clipe abaixo é com certeza um “tapa na cara” da sociedade contemporânea.

Acredito nisso: que temos que mostrar as contradições e lutar para continuar aquilo que os “pais” do rock’n roll começaram.

Manoel de Barros

No último FestiPoa Literária assisti a Desbiografia de Manoel de Barros.

Ele, e sua poesia de menino de 80 e poucos anos, inspiram até não poder mais.  Ler as histórias de suas tantas infâncias traz aquele sentimento que dá vontade de rir e chorar, ao mesmo tempo. Chorar de alegria, e rir de emoção.

Ah, e o filme Só por cento é mentira: A Desbiografia oficial de Manoel de Barros surpreendeu muito! Fotografia e trilha sonoras excelentes! Roteiro maravilhoso!

E, para dar um gostinho, algumas palavras:

Visão é recurso da imaginação para dar às palavras
novas liberdades?

Manoel de Barros, 1916. Menino do Mato

Eu

Ana Migowski, arquiteta de informação, mestranda do PPG em Comunicação e Informação (UFRGS), graduada em Comunicação Digital (Unisinos) e estudante do Bacharelado em Ciências Sociais (UFRGS). Apaixonada por antropologia, cinema, teatro, tecnologia e afins. Uma geek com um Q de bicho grilo. :)

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